sexta-feira, 18 de junho de 2010

O Escritor

Ensaio sobre a Cegueira

* "Foi trabalhoso abrir a cova. A terra estava dura, calcada, havia raízes a um palmo do chão. Cavaram à vez o motorista, os dois policiais e o primeiro cego. Perante a morte, o que se espera da natureza é que percam os rancores a força e o veneno, é certo que se diz que o ódio velho não cansa, e disso não faltam provas na literatura e na vida, mas isto aqui, a bem dizer, não era ódio, e de velho nada, pois que vale um roubo de um automóvel ao lado do morto que o tinha roubado, e menos ainda no mísero estado em que se encontra, que não são precisos olhos para cavar mais fundo que três palmos."

* "Cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança."

* "Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos, façamos tudo para não viver inteiramente como animais."

* "Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos mas então deixará de ser humanidade."

* "O mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos."

* "A maior dificuldade para chegar a viver razoavelmente no inferno é o cheiro que lá há."

* "Perguntar de que morreu alguém é estúpido, com o tempo a causa esquece, só uma palavra fica, Morreu"

* "Na morte a cegueira é igual para todos."

* "Quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos."

* "O costume de cair endurece o corpo, ter chegado ao chão, só por si, já é um alívio, Daqui não passarei."

* "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa somos nós"



José Saramago
José Saramago

José Saramago * 16 de novembro de 1922
+ 18 de junho de 2010








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